Rua

Faraós do século XX
Carruagens de metal
                  com controle sobre o calor da natureza
Isolando o que vem de fora
Barreiras de vidro, isolando o que vem de fora

Insensíveis a tudo à sua volta
Olhar para a frente
Vulto pequeno e insignificante a se pendurar
                  como última esperança em uns trocados
Mas você não olha, você não quer ver

Trocados de vida, de comida, de miséria
Não olhe, pois o contacto com os olhos desse outro ser
Só levam à loucura — abandono
Como pode ser? Não quero ver
Uns míseros trocados...

Não é minha culpa! Tentamos nos convencer
Em vão!
Eles têm o que merecem!
Nós mesmos não acreditamos no que pensamos...
A verdade dói demais para ser mentira

A mentira é a mentira em que vivemos
A verdade ninguém quer ouvir
A solução ninguém ousa dizer
O resultado... Ah, o resultado...

O pé acelera, a consiência fica "tranqüila"
Mas a verdade é mais forte
E os olhos buscam o retrovisor
E o que vemos é a verdade
                  Nua e crua — eu me vi naqueles olhos
                                      eu me vi naquele cruzamento
                                      eu me vi com fome, desespero e morte

Eles sou eu, e eu sou eles
Somos os mesmos
Eu dentro...eles fora, do sonho de viver!